Carta à Tom (Vinícius de Moraes) Porto do Hare, 7 de setembro de 1964.
Tonzinho querido:
Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv`alma. Meu navio só sai amanhã à tarde, e, é impossível alguém estar mais triste do que eu. E como sempre, nessas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. Deixo Paris para trás com a saudade de um ano de amor e pela frente tenho o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é Sete de Setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa Embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para cumprimentar o Embaixador, veio todo mundo ao telefone. Estou queimando um óleo firme! Você já passou um Sete de Setembro, tonzinho, sozinho num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo, maestro! Estou doido para ver você Carlinhos, e recomeçar a trabalhar. Imagine que este ano foi praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira. Mas agora o tremendão aconteceu mesmo, a Europa teve que curvar-se. Mas ainda assim fizemos umas musiquinhas, como “Formosa”. Você vai ver, tudo sambão! Parece até que a saudade do Brasil, quando a gente está longe, procura mais a forma do samba tradicional do que a bossa-nova... Não é engraçado? São – como diria o Lúcio Rangel – “as raízes”! Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para a minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco, bem tostadinho, uma couvinha mineira, e papo-de-anjo, mas daqueles como só a mãe da gente sabe, daqueles que, se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida num banho morno e em trevas totais, pensando no máximo na mulher amada. Por aí você vê como estou me sentindo, nem cá, nem lá... Fiquei muito contente com o sucesso de “Garota de Ipanema” nos Estados Unidos... E Astrudinho, heim? Que negócio tão direito! Vamos ver se desta vez os intermediários deixam “algum” para nós... Fiquei muito contente também com a notícia do sucesso de “Berimbau” aí no Brasil. Dizem que estão tocando a musiquinha para valer... Isso me alegra muito pelo Baden, e – pra que mentir? – por mim também. É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas, pois no fundo mesmo é pra ele que a gente compõe. (fragmento).
Questão 01
Durante o texto, percebe-se um movimento predominante de: (A) solidão; (B) saudade; (C) conformação; (D) felicidade;
Questão 02
Este sentimento, ainda que por razões diversas, vê-se aumentado com o (a): (A) sucesso incontido de Baden. (B) passagem de uma data importantíssima em terra alheia. (C) ausência, na França, de comidas caseiras. (D) distância entre o autor e o destinatário.
Questão 03
No primeiro parágrafo, a tristeza do poeta é marcada pela: (A) viagem que irá fazer contrariado; (B) solidão que existe em volta do hotel; (C) demora existente até a partida do navio; (D) ausência de um companheiro músico.
Questão 04
As cartas escritas pelo autor, que ele nunca manda, objetivam: (A) entrar em contado com o Brasil; (B) ocupar um tempo vago em suas viagens; (C) preencher o vazio de sua solidão; (D) fazer um treinamento literário.
Questão 05
A citação de 7 de setembro pode vir a significar: (A) a oportunidade de mais um espetáculo para o autor; (B) o seu patriotismo e o seu amor pelo Brasil; (C) que na França não há festa; (D) nada em especial, apenas uma lembrança.
Questão 06
A citação de “as raízes”, no 5º parágrafo, prova que: (A) cantar samba no exterior é que faz sucesso; (B) o samba é a forma genuína da música brasileira; (C) no Brasil não se compõe “bossa-nova”; (D) autor só se manifesta neste gênero musical.
Questão 07
Pelo texto, admite-se que “Berimbau” foi escrita: (A) somente por Baden; (C) para o autor; (B) para o Baden; (D) por Vinícius e Baden.
Questão 08
Com base no 2º parágrafo, podemos entender como sinônimos: (A) saudade/paixão; (C) exilado/vida; (B) permanente/inconstante; (D) Paris/exilado.
Questão 09
Pelo termo “exilado”, entendemos que o autor: (A) está afastado do Brasil assiduamente; (B) está afastado do Brasil definitivamente; (C) resolveu fixar residência no exterior; (D) não pode mais residir no Brasil.
Questão 10
O “menu” que o autor pedirá, para quando chegar ao Brasil, revela: (A) a dificuldade que existe para esses alimentos no exterior. (B) a ânsia de estar novamente em contato com os costumes de sua terra natal. (C) a sua constante extravagância ao alimentar-se. (D) apenas a vontade de repetir pratos que, em viagem, acostumara-se a desfrutar.